terça-feira, maio 20, 2008

A Cavalo do Tempo


Luísa Ducla Soares nasceu em Lisboa, a 20 de Julho de 1939, licenciou-se em Filologia Germânica e exerceu actividades de jornalista, tradutora e escritora, prestando actualmente serviços na Área da Informação Bibliográfica da Biblioteca Nacional. Em 1972, publicou o seu primeiro livro, A História da Papoila. Recebeu o Prémio Calouste Gulbenkian para o melhor livro de literatura infantil no biénio 1984-1985 e o Grande Prémio Calouste Gulbenkian pelo conjunto da sua obra em 1996.
A sua obra é multifacetada, varia entre a narrativa, a poesia, a novela para um público adolescente e ainda faz recolhas de textos da tradição oral, onde se destaca as Lenga-Lengas e os Destravas Línguas.
A obra escolhida para ser analisada é A Cavalo no Tempo, uma colectânea de poesia lúdica, a qual se caracteriza por um reforço do poder da comunicação sonora, privilegiando os jogos linguísticos. São-nos apresentados 23 poemas que abordam uma grande diversidade de temas: o tempo, humor, o sonho, o materialismo, o consumismo, não esquecendo as questões actuais como a ida ao hipermercado, o computador e os bebés provetas.
A obra da Luísa Ducla Soares desenvolve-se numa simplicidade do enredo, da estrutura, dos temas, da linguagem o que permite uma aproximação aos leitores, muito significativa. Simplicidade não é sinónimo de simplificação. Como afirma Manzano (1988) ” Sem menosprezar a simplicidade, a literatura infantil tem de favorecer um progresso enriquecimento temático e linguístico, tem de converter-se num caminho estrutural e expressivo adequado á capacidade de assimilação infantil.” O uso recorrente à apóstrofe facilita a comunicação com o leitor, introduz na criança um outro olhar sobre o mundo, permite o desenvolvimento de práticas lúdicas e expressivas.
A influência da literatura oral tradicional é visível na poesia de Ducla Soares, prova disso é o uso do recurso estilístico anáfora, presente no poema L de Lisboa:
(…)
Lisboa
das lojas,
dos largos,
do luxo,
do lixo,
do labor …..

o uso do refrão, próprio das canções populares e presente no poema Diz o Avô, também são exemplo das raízes tradicionais.
A autora conhece o universo dos seus destinatários o que mais uma vez permite a eficácia no processo comunicativo.
O humor é característica na obra poética da autora, na obra analisada não é frequente, apenas se identifica uma passagem de humor escatológico, muito do agrado dos mais novos:
(…)
A Rainha Santa
não tinha sanita.
onde iria ela
Se estava aflita?
Na obra em questão, a construção estrófica é muito variada, oscilando entre as quadras, as oitavas, décimas ou estrofes com 16 versos o que imprime ritmos diferentes e facilita jogos linguísticos. A aliteração presente em alguns poemas provoca um efeito significativo, muito do agrado dos leitores mais jovens:
“ O Porto com suas pontes
O porto com suas pedras
Seus painéis pintados nas paredes
Suas praças de paz
Seus produtos
Seus passeios
Seus pardais.
(…)”
Na obra A Cavalo no Tempo a primeira questão que se coloca é: porquê a cavalo? e não outro meio de transporte mais rápido? A simbologia do cavalo está associada aos ritos de passagem, ao transporte da alma para o mundo dos mortos. Os cavalos são a morte e a vida. Como veículo ou montada do homem, o cavalo tem o seu destino interligado ao dos seres humanos. Durante o dia, é o cavaleiro que induz o cavalo, mas à noite é o cavalo que na escuridão dirige os destinos do homem e assim se torna vidente e guia. Na obra de Ducla Soares, o cavalo conduz-nos ao ciclo da vida, galopando entre a infância e a idade madura, entre a criança e o adulto, entre o passado e o presente. O tempo escapa-nos ao nosso controlo, o instante é fugaz obrigando-nos a viver entre as memórias do passado e os sonhos e desejos do futuro. A incapacidade de controlar o tempo é visível no poema O Tempo:
(…)
Mas onde moras, ó tempo,
Que não te consigo achar?
(…)
Pelas pedrinhas da rua
O tempo fui procurar.
(…)
O tempo que não achei
Já me fez envelhecer.
A obra inicia-se com o tema do tempo, de forma bem explícita e termina exactamente da mesma forma, transmitindo-nos a ideia do eterno retorno. Esta concepção filosófica mostra-nos que o Mundo não é feito de pólos opostos e inconciliáveis, mas de faces complementares de uma mesma - múltipla, mas única – realidade, como por exemplo a vida e a morte, o ser criança é uma fase da vida, a qual se complementa com a vida adulta. As fases da vida são instâncias que se alternam eternamente. O tempo é infinito, as combinações de forças em conflito, isto é a criança e o jovem, o adulto e o velho (que surge na figura dos avós), são momentos finitos que em algum momento futuro tudo se repetirá infinitas vezes. Assim, os mesmos factos retornam indefinidamente.
O tempo antigo, a noção de história é abordado de uma forma divertida e humorística no poema Antigamente. Uma longa viagem entre personagens históricas como Adão e Eva, Jesus e Maria, Dom Afonso Henriques Rainha Santa, Vasco da Gama, Luís de Camões e Marques de Pombal conduz à interrogação dos jovens sobre a sua insatisfação materialista.
No poema Na Máquina do Tempo o tempo é abordado no sentido da necessidade de ser recuperado. O poema termina lançando o desafio de viajar na máquina do tempo, sonhando que é possível recuperar tempo das brincadeiras, o tempo da infância, através da máquina do tempo. A capacidade imagética é ao mesmo um desafio aos jovens que tanto se preocupam com o mundo material, desprezando outros valores e atitudes.
Todos os temas incentivam a curiosidade do leitor mais jovem, sobre o mundo que o rodeia conduzindo a uma reflexão sobre a existência, a forma como nos relacionamos com os outros ou ainda com os problemas sociais e éticos. O problema da existência, a busca de um sentido está expresso no poema Quem és tu?
(…)
Tenho uma piscina aquecida,
Um cavalo para montar,
E como sempre marisco
No restaurante, ao jantar
(…)
- Afinal tu não existes,
és só aquilo que tens,
um zero todo coberto
de uma montanha de bens.

A vida humana é uma tarefa permanente e nunca acabada, e o homem é essencialmente um projecto, aquele que cada um de nós é, resulta das respostas que diariamente vamos dando às situações vividas. Infelizmente, a maioria das pessoas opta por respostas fáceis e pela ostentação com o objectivo de alcançar um status social. Estes hábitos e atitudes são transmitidos aos mais jovens, valorizando as roupas de marca, a quantidade de jogos do game-boy, o telemóvel de última geração. Os jovens apropriam-se de valores menos construtivos para a pessoa humana. O ter é valorizado face ao ser. A crítica social está presente em muitos dos poemas, o jovem leitor é interpelado neste sentido, na esperança que a resposta seja dada e reforçada a acção pedagógica.
Na poesia de Ducla Soares há um apelo à dimensão social e ética, à formação da pessoa humana. Os pequenos actos são valorizados e neles reside o verdadeiro valor da nossa existência, por isso há uma desmistificação da ideia que os heróis são perfeitos, que matam, arrasam, aqui o herói comete pequenos, grandes actos, o de plantar, criar, construir ou simplesmente de seduzir. Esta ideia é transmitida no poema Heróis:
(…)
Dizem que é um herói,
Conquistou trinta países.
Eu cá conquistei a Rosa
E somos muito felizes.

Um último aspecto relevante nesta análise é a ilustração e como é articulado o texto e a imagem, esta da autoria de Teresa Lima. A ilustração é um elemento fundamental na Literatura Infantil e Juvenil, uma vez que permite desenvolver outras competências, só recentemente apreciadas, nomeadamente o sentido estético, a leitura de imagens e a articulação da linguagem visual com a textual.
As guardas apresentam relógios toscos, ponteiros fora dos relógios, talvez perdidos procurando o tempo certo e a presença de ampulhetas recordando formas mais arcaicas de contar o tempo. Há uma focalização num pormenor determinante para introduzir o tema principal: o tempo! As guardas representam uma ideia já presente na capa do livro, esta repetição justifica-se pela dificuldade de abordar um conceito abstracto – o tempo - e por isso mais difícil para os mais jovens. Neste caso específico, está-se perante guardas decorativas, isto é a ilustração parte de um motivo relativo à história que irá ser abordada na obra.
As ilustrações da obra A Cavalo no Tempo funcionam como um complemento do texto, permitindo o deslocamento de informações para as imagens, atrair e cativar a atenção do leitor, aprofundar e ampliar as possibilidades do texto. O poema Quem és tu? é acompanhado de uma ilustração que segue o conteúdo do texto, realçando as roupas de marcas apreciadas pelos jovens e terminando com o jovem e as suas setes namoradas. A ilustração do poema L de Lisboa possibilita-nos adivinhar o seu conteúdo pela ilustração. Repare-se no pormenor do cabelo da fadista, formando um L que dá o título ao poema. Significa que a ilustradora se apropriou do texto e a sua ilustração não é mais do que uma recriação da sua leitura. A ilustração do poema O Tempo é um exemplo que a ilustração poderá permitir um aprofundamento da história ou ampliar as possibilidades da história: que significado terá um coração com ponteiros? Ou uma ilha ensombrada com uma ampulhetas? Ou um bosque cujas raízes estão assente num relógio? De certeza que nenhum leitor será indiferente à mensagem poética, aos alertas lançados pelo sujeito poético, à sonoridade de uma leitura em voz alta ou ainda à mensagem visual!



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andorinha